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Quando o carro novo é mais caro do que parece
Ainda não se viu nenhuma ação efetiva das autoridades competentes (?) no sentido de examinar de perto a maquiagem dos planos de financiamento dos automóveis novos, ora bolados pelas montadoras, ora bolados pelas concessionárias, ambas cartéis que se aproveitam dos consumidores para cartelizá-los em grupos de enganados e bolados. Ainda mais em época de mercado aquecido, como agora, em que tem até fila para comprar alguns veículos mais procurados, e com 68% das vendas de carros novos com financiamento...
E como esses grupos poderosos no trato com o governo são fortes como os bancos e as empreiteiras, só resta fazer a nossa parte e alertar para a propaganda enganosa maquiada por marketeiros dignos de assessorar candidatos, ou seja, especializados em propagandear planos não realizáveis.
Começam por alardear o chavão “a partir de tantos por cento de juros” ou, com mais alarde ainda, “tudo com juros zero, exceto...”, sempre acompanhadas por minúsculos asteriscos (*) e, mais minúsculas ainda, notas perpendiculares de lateral de páginas ou de pé-de-páginas. Literalmente minúsculas, essas notas exigem sempre lentes de aumento para qualquer um que tente ler as condições do engodo ou as exceções que são regras.
Continuam por anunciar em letras garrafais planos com altas taxas de juros para prazo de 60 meses, e agora até 72 meses, com entrada zero: assim o consumidor fica pagando eternamente essas taxas enquanto na economia as taxas, felizmente, estão em baixa progressiva. E são quase sempre dois planos diferentes e mutuamente excludentes: quando o prazo é curto e as taxas baixas, a entrada é grande. Mais ainda: acabam por depenar o carro, ou seja, quase tudo que é bonito e gostoso, tipo vidro verde, trio elétrico ou direção hidráulica, é cobrado por fora, digo, cobrado além do preço anunciado como chamariz...
Ao ensejo dessas notas sub-reptícias de rodapé, vale interpretar a definição de asterisco, a qual foi consultada (aliás, também com lente) no Houaiss: “sinal gráfico em forma de estrela (*) para indicar supressão, dúvida ou outra convenção previamente estabelecida”. Ou seja, exatamente o que elas fazem com os consumidores: suprimem o frete e outros itens do preço real para fazer pensar que o preço é baixo, e tiram as dúvidas de quem pensava que era um bom negócio...
O marketing financeiro ataca sem pena nessas ofertas, de modo que o incauto, com visão prejudicada e sem lente de aumento, sai de casa crente que vai comprar um carro com juros zero, ou em 60 meses sem entrada, ou com bônus reais, isto era, aqueles que não foram antes adicionados ao preço.
Enfim, como fazer para escapar dessas armadilhas, dignas de bancos e de cartões de crédito? Ora, abrir o olho, tratar de enxergar o que está escondido, descobrir as escaramuças e fazer valer o poder de compra. Antes de tudo, deve-se sair pechinchando em várias revendedoras para verificar qual é de fato o verdadeiro preço à vista do veículo novo que se está procurando e se ele está com o frete incluído e quais os opcionais a que tem direito.
Depois, cuidado com prazos e juros. Quando o cartel anuncia juros zero, ou uma taxa de juros bem baixa para nossos padrões, a oferta só é válida com entrada que varia de 50% a 75% do preço base de negociação, geralmente em função da maior ou menor liquidez na venda que tem o modelo do carro. E, para princípio de conversa, quase sempre esse carro tem um belo desconto para quem paga à vista, (conforme pesquisado na pechincha), o que na realidade representa os juros embutidos pelo marketing da oferta.
Outra gracinha deve-se às tais Taxas de Abertura de Crédito (TAC), um artifício de linguagem para escapar da obrigatoriedade de anunciar as taxas de juros realmente pagas, pois cobrando “algum” na frente se paga taxa maior de juros. Junto com essa, muitas vezes ainda tem-se que pagar mais o frete e a pintura metálica, que “não estão incluídos no preço”, ou seja, mais um engodo.
A última e mais ridícula enganação agora é o anúncio de carro 2008... Se o ano mal começou, como se vê pelas providências não tomadas nos pepinos aéreos do ano mal passado, como se pode levar isso a sério? É um desrespeito com o consumidor. Mas hoje, em dias de vale tudo, segundo os exemplos que vêm de cima, isso é pouco: só estão enrolando mais uma vez o povo, que continua acreditando em tudo que se promete!