Atualizado em -
Samba, suor e um ano para pagar
Nos tempos em que as escolas eram melhorzinhas, padrão daquela hoje do Piauí (quem diria, hein?), aprendemos que os imperadores da antiga Roma se mantinham no poder respeitando os limites da capacidade do povo de agüentar os abusos e desmandos.Para isso seguiam uma máxima da época, que rezava que bastava dar ao povo “pão e circo”.
Nossos governantes sempre souberam disso e trataram de correr atrás do trio a vapor, agora trio elétrico, aplicando no nosso povo a mesma receita, via merendas escolares, programas de leites, bolsas famílias; campeonatos de futebol o ano inteiro, carnavais sem fim nas ruas e na Câmara e, nalgumas praças, violência padrão-Coliseu-Romano com bigas arrastando gente.
As vezes dão o peixe, mas raramente ensinam a pescar. E o país ainda com a pior distribuição de renda, digo, a melhor concentração de renda do mundo civilizado, sem planejamento familiar e sem educação de base decente. Quando eu era garoto meu pai dizia que os políticos inventaram a “indústria da seca” para ganhar votos, mas agora adotaram a “indústria da educação”: tudo é papo-educação, no papel, mas, na prática, é só conversa mole para eleger quem gosta de mensalidades e ambulâncias.
O nosso Carnaval nada mais é que o nosso maior dos circos (podemos até dizer que é o maior circo do mundo) e lá vai o povo sambando e “dançando”, afogando as mágoas e dificuldades no asfalto das ruas, das avenidas e dos sambódromos. Algumas famosas composições carnavalescas do meu tempo, e dos seguintes, já cantavam isso, externando o cotidiano popular com poesia e emoção. Hoje estou no clima!
Billy Blanco em “Viva meu samba”, de 1957, cantava “(...) Venho do reino do samba brilhar no asfalto / E em forma de samba, desce o morro também / Faço da minha tristeza / Um carnaval de beleza / Que as outras terras não têm / Toda riqueza do mundo / Não vale o terreiro / Onde eu canto meu samba com simplicidade (...)”.
Tom e Vinicius se excederam na capacidade de interpretar o sentimento do pobre em “A Felicidade”, que foi tema da adaptação de eterno clássico de tragédia grega, na peça e filme “Orfeu do Carnaval”, em 1959: “Tristeza não tem fim / Felicidade, sim / A felicidade é como a gota de orvalho / Numa pétala de flor / Brilha tranqüila / Depois de leve, oscila / E cai como uma lágrima de amor / A felicidade do pobre parece / A grande ilusão do Carnaval / A gente trabalha o ano inteiro / Por um momento de sonho / Prá fazer a fantasia / De rei ou de pirata ou jardineira / E tudo se acabar na Quarta Feira”...
Na Quarta Ffeira acaba tudo, mas nessa contagiosa alegria do Carnaval são esquecidos todos os nossos problemas e dificuldades e, logo, logo, estaremos vacinados para enfrentar o duro cotidiano. Vamos continuar convivendo com os juros escorchantes dos cartões de crédito, bancos e financeiras; com a cara-de-pau do governo ao dizer que não vai acabar com a malfadada CPMF (que era para a Saúde, mas não teve forças para chegar lá); com a impunidade de deputados indiciados; e com tantos outros pepinos não digeridos pelo bolso vazio do povo.
Podemos ter a certeza que os governantes leram e aplicam as teorias de Maquiavel, em “O Príncipe”, onde é ensinado a novos governantes como conquistar o poder e mantê-lo. Por exemplo, como manter as aparências e manejar para, sob diversas tramas, identificar o que lhe trará sucesso político ou fracasso. E daí passam a conviver com parceiros sem escrúpulos e a lotear cargos dentro de suas conveniências eleitoreiras, nunca defendendo o interesse do país... E o povo, ó!
Pelo menos o sacrifício que nos impõem substitui o mote da 2ª Guerra e assim podemos “deixar cair” no samba, no frevo e na gandaia. Duro é depois enxugar o suor do ano inteiro trabalhando e ralando para os que gozam do “abuso adquirido” continuarem a levar “o nosso” impunemente se auto concedendo aumentos de salários.
Duro é conter as lágrimas da emoção ao ver passar os Blocos e as Escolas de Samba, lembrando que todo o povo vai ter que trabalhar duro o ano todo para pagar as suas fantasias e as “fantasias” que os poderes constituídos continuam a inventar.