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    Juros que parecem, mas não são

    Existem as mais diversas linguagens de taxas de juros para operar o custo do dinheiro - e uma das maiores dificuldades de um cidadão fora desse mercado será sempre identificar qual a linguagem que está sendo usada ao examinar qualquer proposta de crédito ou aplicação.

    Várias artimanhas são usadas no mercado financeiro para disfarçar o custo efetivo de operações e o leigo sempre é levado na conversa, digo, lesado no bolso.

    Nesse ambiente de enrolação, as financeiras fazem a festa e literalmente enganam os pobres-tomadores-pobres, cobrando taxas de cadastro e de abertura de crédito de valores absurdos, seguros de vida vinculados - e os pobres, óóó... Essas taxas, de valor nunca explicitado nos Folhetos de Sedução ao Consumidor, costumam ter um valor mínimo, porém nada mais são do que custos que transformam as taxas de juros abusivas em escorchantes e espoliadoras.

    Assim, num pedido de empréstimo de R$200,00, chega a ser cobrada uma taxa fixa de abertura de crédito, ou de cadastro, ou de outras, de R$40,00, a qual acaba também financiada nas módicas taxas de 14% ao mês, o que em 6 parcelas faz a taxa efetiva ser de 21% ao mês! O que o pobre-tomador-pobre não atina é que essas taxas, sendo custos que diminuem o valor recebido ou aumentam o valor a financiar, transformam a já alta taxa nominal declarada em uma taxa de juros muito maior (a taxa de juros é nominal quando não se tira dela a inflação, ou noutro conceito, quando parece, mas não é).

    Outra criação, obra de sedutores marqueteiros para estimular bons pagadores, é a oferta de liberar a última parcela de 12 contratadas como prêmio para a pontualidade. O detalhe que leigos não identificam é que uma parcela lá no fim vale muito pouco e quase nada reduz a taxa efetiva cobrada. Num empréstimo de R$500,00 com taxa de cadastro de R$40,00 a 14% ao mês em 12 mensais iguais, a quitação da última parcela transforma a taxa efetiva de 15,79% ao mês em 14,97% ao mês; e o tomador levou R$500,00 e pagou o total de R$1.049,42... Note que essas taxas de mais de 10% ao mês freqüentam aos montões as nossas ruas, oferecidas por inocentes úteis aos pobres-tomadores.

    Não menos enganados pela propaganda enganosa são os seduzidos pelas tentadoras ofertas de carros-novos-com-nota-fiscal-de-fábrica financiados com “taxas de juros zero”. Ora, que se saiba todos os carros novos tem que ter nota fiscal de fábrica, mas daí a dizer que esses preços são os menores do mercado já não é a mesma coisa, pois muito “rebate” acontece por baixo do pano.

    Para começar, para carros com a “taxa de juros zero” a entrada mínima é de 60% , com o saldo dividido em 12 mensais iguais. Mas cobram uma TAC (Taxa de Abertura de Crédito) de cerca de R$ 500,00, mais taxa de cadastro de R$ 150,00. Um carro de R$ 21.000,00 de “preço a vista” tem, nessas condições, a “taxa de juros zero” transformada de cara em 1,26% ao mês. E some-se às despesas mais o IOF da goela grande do governo.

    Ainda mais: alguns anúncios têm a cara-de-pau de declarar que estão excluídos das ofertas de “taxa zero” os veículos em promoção! Ou seja, o preço a vista mesmo, é menor... E uns e outros, executivos da área, ainda têm mais uma cara-de-pau ao virem às telas de TV’s se mostrar bancando a propaganda enganosa!

    A alegação em defesa é que a entrada é alta é para diminuir o risco como contrapartida para a taxa zero. O engraçado é que para financiamentos em 48 ou 60 parcelas mensais iguais, os mesmos veículos são oferecidos sem entrada, com taxas fixas entre 3% e 4% ao mês. O quê que eles estão querendo? Aplicar a grana durante 48 meses em taxas altas, face à expectativa de redução de taxas pelo governo!

    Em suma: vale lembrar que tudo que encarecer a parcela a guisa de toda e qualquer taxa, tarifa ou imposto, distorce as taxa de juros anunciadas, donde os juros efetivos serão maiores que os juros que se pensa estar pagando.

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