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    O playboy e as taxas de juros

    Após a implantação do Plano Real, além da queda da inflação, muita coisa mudou na Economia. Passou a ser muito mais importante economizar para juntar, e então poupar, do que simplesmente tentar viver dos rendimentos da aplicação. Isso é, porém, uma maneira de dizer, porque até arranjar o capital suficiente para viver de rendimentos financeiros e definir essa condição como ideal, temos um enorme caminho a percorrer, de trabalho, de sacrifícios ou, de preferência, ganhando uma boa herança.

    Essa filosofia é visível a partir de minha história, já tradicional, “ O Playboy e os Juros”, muito bem resumida pelo saudoso jornalista Paulo Rehder, então assessor de imprensa da Bolsa do Rio, após assistir uma aula minha sobre o tema:


    Num país sem inflação, um playboy recebe uma herança de US$ 20 milhões. Aplica o dinheiro em um Banco a juros de 5% ao ano e com o rendimento real de US$ 1 milhão por ano, passa o verão na praia e o inverno esquiando na neve. Está com a vida que pediu a Deus.

    O banqueiro empresta os US$ 20 milhões a uma empresa na taxa de 10% ao ano. A empresa aceita essa taxa por que seu investimento na produção vai gerar um lucro real de 15% ao ano, que é a taxa de retorno do investimento em 5 anos.

    No final do outro ano, como muita gente seguiu o exemplo do playboy, vendendo suas empresas ou deixando de trabalhar para viver de juros, o banqueiro, diante de tanta oferta de dinheiro e de tão pouca procura, passa pagar só 3,5% ao ano de juros.

    O playboy e seus seguidores, diante de tão baixa renda, resolvem voltar a trabalhar e a produzir, deixando de viver de juros. E o País volta a crescer e a produzir mais... até o ciclo se reiniciar e começar tudo de novo.



    É por conta dessa situação – dizem os economistas – que a política monetária do governo, que é direcionada pela variação das taxas de juros, consegue regular a inflação, criando, conforme o caso, a famigerada recessão ou o saudável desenvolvimento da Economia.

    Temos visto e acompanhado, dada a nossa dependência da economia americana, o sobe e desce das taxas básicas do Tio Sam, promovida pelo FED, o Banco Central deles, baixando as taxas quando quer reverter a recessão e subindo, como agora, quando quer controlar a inflação freando os impulsos consumistas da maior economia do mundo.

    Por aqui, abaixo da linha do equador, nós cá temos estado durante muito tempo com uma demasiadamente alta taxa básica de juros definida pela nossa política monetária tupiniquim, suficiente para manter a inflação sob controle, mas, contesta-se, se necessária, pois, aliada à goela grande do governo com seus impostos e dos nossos bancos, inibe sobremaneira o investimento produtivo. No contexto atual da nossa economia, avalia-se que essa terapia já deu o que tinha que dar e que já é tempo de se dar alta ao paciente em recessão e dar baixa nas taxas de juros e nos impostos.

    Do jeito que está, resta aos pobres trabalhadores, que não podem gastar mais do que ganham, apertar os cintos, ou o resto dos cintos, e tentar economizar para poder poupar nessas altas taxas de juros. Só que a intermediação bancária na administração dessa poupança mete a mão despudoradamente e leva gorda fatia dos rendimentos, auxiliada pela fome do leão.

    Nesse contexto, o mais importante não é ficar mudando de aplicação, da poupança para fundo, do CDB pra o CDI, da LFT para a LTN ou do à vista para os derivativos. O que vale é economizar, deixar de consumir supérfluos e não gastar além do orçamento, pois as pessoas físicas devem lembrar que não são Governo, isto é, não podem gastar mais do que ganham nem podem inventar uma CPMF (Contribuição Permanente sobre Movimentações Financeiras), ou uma CSLL, para cobrir seus rombos assistencialistas.

    Além de tudo, é preciso analisar com carinho o comportamento do playboy e chegar à conclusão que o retorno do investimento produtivo é o melhor de todos, embora tendo que trabalhar, correr riscos e enfrentar os entraves burocráticos. Se não quiser ser remunerado pelo trabalho, ainda resta a opção de participar de empresas, adquirindo ações, investimento de longo prazo para quem acredita que um dia deixaremos de ser o País do futuro para ser o País do presente.

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